A primeira montagem do Teatro Oficina da qual participei foi a de “Mistérios Gozósos”, feita a partir do poema “O Santeiro do Mangue”, de Oswald de Andrade. O ano era 2015 e eu estava no meio da segunda dentição da Universidade Antropófaga – método de transmissão de prática e conhecimento do Oficina –, que naquele ano durou seis meses e culminou no Bloco Pau Brasil, no Carnaval de 2016. No meio do caminho, em Novembro, iniciaram-se os ensaios com o Zé e eu fui absorvida pelo processo, para minha sorte, traduzindo o texto para o inglês e, futuramente na temporada, operando as legendas ao vivo. Chegava no teatro de tarde para a Universidade e saía de lá 12 horas depois, de madrugada, quando acabava o ensaio. Quatro dias por semana de Universidade, seis de ensaios.
Fiquei absurdada com o que eu testemunhava todas as noites. Mesmo não atuando na pista e assistindo tudo da torrinha do teatro, a experiência me hipnotizava. Não tinha como saber na época que seria o primeiro de outros processos que eu viveria ali com Zé e Cathérine (obrigada, Deusas). Toda noite eu sentia que podia ser a última, que alguém ia me mandar embora, que eu tinha tido acesso ao tempo mítico e a ritos secretos que não eram para mim e que em breve eu seria colocada de volta no mundo profano onde não tinha nada nem remotamente tão interessante quanto isso acontecendo.
Nerd que era, já tinha lido “O nascimento da tragédia” do Nietzsche antes de ir ao Oficina como público pela primeira vez. Quando vi o que se passava ali, constatei ao vivo o que Nietzsche descrevia no livro e eu julgava inexistente no mundo desde a Grécia antiga. “Isso é teatro grego, teatro de coro, é tragédia”. Como diriam os baianos, aquilo apertou a minha mente. Passam-se uns anos e estou nos ensaios vendo e recebendo direções do Zé e da Cathérine; eu não tinha léxico que descrevesse o estado de êxtase em que meu corpo e espírito se encontravam. Eu não sentia sono, nem fome, nem doença, nem dor. Só tesão, paixão, movimento, sede, devoração. Eu mal dormia. Só o presente existia.
Essa série fotográfica não transmite tudo isso. Por esse motivo o texto, para contextualizar. Não tenho muitas fotos desse processo e essas foram as que consegui fazer sem flash, rootsmente, mas com um negativo de altíssima sensibilidade para fotografar à noite. Não ficamos muito tempo em cartaz com “Mistérios Gozósos”, que para sempre será meu primeiro processo de montagem no Teatro Oficina. Os retratos, sem eu saber, registraram pessoas com quem vivi muitas aventuras nos últimos dez anos, pessoas que eu não sabia então mas que viria a amar.
Todas as fotos foram feitas em Novembro de 2015, no Teatro Oficina, com minha Canon AE-1 e um rolo de Ilford Delta 3200, durante os ensaios de “Mistérios Gozósos”, montagem feita a partir do poema “O Santeiro do Mangue”, de Oswald de Andrade.
Maria Bitarello é artista do texto, da fotografia, do teatro e da música, e desde 2015 integra a Companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Tem três livros lançados: “Vermelho-Terra”, “O tempo das coisas” e “Só sei que foi assim”. Site oficial: mariabitarello.com
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